“A minha personagem em ‘Sorrow and Glory’ não tem nada a ver com a mãe do Volver.” Penélope Cruz

Agora está claro para todos que o novo filme de Pedro Almodóvar, ‘Dolor y gloria’, é sobre o próprio Almodóvar, com sua história de um cineasta que triunfou nos anos 80 e está tentando superar uma grave crise criativa e pessoal. O filme alterna claramente momentos autobiográficos com elementos de ficção, mas o que tanto Salvador, seu alter-ego interpretado por Banderas, como o próprio Almodóvar concordam é que os atores são essenciais para sustentar suas ficções.

E poucas atrizes são mais relevantes do que aquelas que dão vida à própria mãe. Depois de muitos filmes em que a verdadeira mãe do diretor La Mancha interpretou pequenos e suculentos papéis, Almodóvar deu a duas atrizes já experientes no trabalho com ele, Penélope Cruz e Julieta Serrano, a chance de interpretar uma versão alternativa de sua própria mãe. O primeiro, num vislumbre do passado em que Salvador ainda é uma criança. O segundo em seus últimos anos de vida, já vivendo na companhia de seu filho.

Conversamos com ambos para saber como o diretor de La Mancha tem sido aberto para contar detalhes de sua vida (embora em código fictício), como nunca ousou antes.

  • Julieta, que sensação você teve quando viu que ia interpretar a mãe de Almodóvar, ou uma versão alternativa dela, nos seus últimos anos?

JS: Quando li o roteiro, vi muito claramente que Peter estava falando sobre a sua vida. Claro que misturando com ficção, não sei até que ponto, porque não conheço assim tanto a vida do Pedro, mas achei que era um filme muito arriscado, para me abrir. Que ele precisava de fazer, talvez, e também de grande generosidade. Eu não conheci a mãe dele, só a vi no cinema, mas ele não queria que eu a imitasse de todo. O que me preocupava era encontrá-lo novamente, não porque ele fazia de sua mãe, mas porque não trabalhávamos juntos há muitos anos. E ele tem sido terno, amoroso e normal: a vida tem corrido e nós nos reencontramos.

  • Você não concorda com ele desde 1990, em ‘Tie Me Up’. Como você viu a evolução dele, você acha que ele mudou muito?

JS: Eu segui-o durante todos estes anos e vi como ele evoluiu. A impressão que ele me dá agora é aquela que sempre me deu: ele faz o que quer, o que sente, não se preocupa com o que as outras pessoas vão dizer. Ele sempre me deu a impressão de que tem força e paixão pelo cinema, por expressar o que sente, o que o levou a ter sempre um pensamento transgressivo.

  • Vocês se viram para preparar o papel comum da mãe de Salvador em momentos diferentes da sua vida?

PC: Nunca conseguimos ensaiar juntos, acho que ele passou mais tempo com Antonio e Asier [Etxeandia], e decidiu não nos juntar. Em momento algum senti que este processo seria coxo, o que é claro é que ele não queria que imitássemos ninguém. A verdade é que filmar é sempre um processo semelhante, Pedro não tem mudado muito ao longo dos anos. Talvez agora ele e eu nos conheçamos tão bem que sabemos o que o outro está pensando e isso ajuda. Há diretores que não gostam de ensaiar, ou não compartilham nenhum processo de preparação, e eu o preparo por outro lado ou com a ajuda de Juan Carlos Coraza [treinador interino], ou por mim mesmo.

Com o Pedro não faço nada, é como se me tornasse plasticina para ele, e entrego-me porque sei que com ele vou ter o melhor resultado e posso confiar no que ele faz, porque é muito exigente mas não é nada manipulador. Ele diz-me: “Quero que chegues aqui.” Se eu chegar aqui, ele me diz; se não, ele me diz, e tentamos até chegarmos aqui. É difícil? Possivelmente, mas eu prefiro, porque por outro lado não vi ninguém mais grato quando as coisas correm bem. Quando eles não saem, ele também fica frustrado, porque pára tudo por três anos e coloca tudo em cada filme, então você tem que lhe devolver a mesma coisa.

  • Penelope, como você preparou o papel de uma mãe que é vista como uma mãe idealizada, a partir dos olhos de uma criança?

PC: Como sempre com o Pedro, a personagem foi muito bem escrita, e todas as respostas estavam no roteiro. Fiz diferentes tipos de maternidade com ele: ele sempre me viu como mãe, mesmo antes de eu ser uma, mas eu entendo porquê. Quando eu era pequena, minhas primeiras lembranças de fazer de mãe, quando eu tinha quatro ou cinco anos, eram sempre de fazer de mãe, eu tinha quatro ou cinco bebês em cima de mim. Pedro sempre viu em mim esse instinto maternal, porque ele vê tudo, e quase sempre me dá papéis maternais.

  • Você considerou Raimunda, a mãe que você tocou em ‘Volver’?

PC: Nós a levamos em conta, mas para que ela não fosse nada parecida com ela. É por isso que esta mãe é muito mais austera na aparência, no caráter também, há algo mais seco, ela é mais magra, com o rosto lavado, sem pentear muito, o vestido caído, com estas estampas como as que minha avó tinha, o medalhãozinho… não tem nada a ver com a mãe de ‘Volver’. É a energia de outra mulher, embora o outro olhar seja muito tentador porque nós dois gostamos muito de Raimunda.

  • Num ponto do filme, Salvador diz: “Eu devo tudo a você. O “Dor e Glória” é uma carta de amor para as mulheres?

JS: Em todos os seus filmes há uma carta de amor para as mulheres, porque ele nos conhece como ninguém. É por isso que dizem que ele é um grande director de mulheres. Acho que Pedro percebeu desde jovem, através de sua mãe, o poder e a força de vontade das mulheres, e isso se refletiu em todos os seus filmes. Entretanto, este é um filme principalmente com homens, que são os que rodeiam o personagem principal, Salvador, tanto como adulto quanto como criança.

  • Penelope, como é que lidou com o trabalho com aquele rapaz, Asier Flores?

PC: Esta criança era uma progidiana. Tentei passar tempo com ele para criar uma relação de amizade, conseguimos e acho que isso aparece no filme. Durante os intervalos ele me falava de toda a sua vida, da sua relação com os seus irmãos… agora as crianças sabem tudo, Asier parecia uma pessoa mais velha quando falava, mas não se pode esquecer que ele é uma criança. Cada tiro o pregou, ou sempre trouxe algo novo ao seu caráter.

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