‘A.V. (Vídeo Adulto)’, de Tarkovsky à pornografia, há um passo

Vou começar por dizer as coisas do costume, que nunca me canso de repetir. O cinema oriental, como muitos outros, é uma grande incógnita no nosso país. Deixando de lado os clássicos indiscutíveis como Kurosawa, Ozu, Mizoguchi e Kobayashi, há atualmente poucos diretores que estão começando a ter um lugar no nosso tempo. Bong Joon-ho ou Kim Ki-duk seriam dois bons exemplos. Nomes que estão começando, junto com outros, a ser conhecidos e, acima de tudo, lembrados. A maioria dos filmes que vêm de lá não tem lançamento nos nossos cinemas, e tudo o que nos resta é o DVD ou a web (atacado mil vezes pela indústria, mas graças ao qual pudemos ver gemas reais, tanto conhecidas como desconhecidas, o que de outra forma seria impossível).

No que diz respeito ao DVD, há casas que assumem riscos e apostam neste tipo de cinema, editando filmes que nunca teríamos visto lançados num cinema, suponho que por causa da cegueira dos distribuidores, aos quais devemos acrescentar a cegueira do espectador. Mediatres é um desses distribuidores (apoiado pela todo-poderosa Warner), e depois de se aventurarem a lançar um filme como ‘Hula Girls’ no grande ecrã e encontrarem que quase ninguém, infelizmente, prestou atenção, lançaram nas edições de dvd, o que suponho ser mais rentável e menos arriscado. A.V. (Adult Video)’ é um desses filmes, uma comédia adolescente sobre as complicações do sexo, com não poucos sucessos.

O argumento de ‘A.V. (Adult Video)’ concentra um grupo de jovens estudantes que, fartos de serem ignorados pelas meninas, decidem realizar uma idéia ultrajante e ousada. Eles decidem pedir dinheiro ao governo, um subsídio que recompensa projetos de jovens que querem começar coisas interessantes. Com este dinheiro contratarão os serviços de uma famosa atriz pornográfica para filmar um filme pornográfico, para que possam fazer sexo facilmente. Em breve, terão a companhia de amigos que fingirão ser membros da equipe técnica ou de uma empresa de produção de pornografia imaginária. Será uma experiência que eles não vão esquecer.

A primeira coisa que aparece depois de ver um filme como “A.V.”. (Vídeo para adultos)’ é o pensamento que os americanos em breve pensarão em fazer um dos seus remakes da sorte, se ainda não o fizeram. Assim, o filme original será muito mais desconhecido do que já é. Remakes não ajudam a conhecer a obra original, mas a desprezá-la ainda mais, e digo isto para todos aqueles que se recusam a conhecer os filmes que inspiram e ultrapassam com muito absurdo novas versões (na maioria dos casos, que, claro, há exceções). O filme é parte da comédia juvenil que deixou tão bons benefícios em todas as cinematografias (não só os Yankees vão se vangloriar disso). É uma história fácil, que por vezes tenta cobrir demasiadas coisas, mas acima de tudo é uma comédia servida com inteligência, e com muitas piadas referentes ao mundo do cinema.

O mais engraçado de tudo está escondido no personagem que dirige o filme, um garoto que sonha em ser um diretor de cinema autoral, e procura coisas onde não há nenhuma, sempre pensando no poder dramático de suas imagens, esquecendo a todo momento que tudo o que ele está fazendo é pornografia. Ele esconde seus filmes X dentro das capas de filmes como ‘Stalker’, um dos filmes mais famosos de Andrei Tarkovsky. Uma piada com muito mais sangue mau do que parece no início, ou seja, ele simplesmente esconde lá os seus filmes X porque ninguém pensaria em olhar para essa capa. Mas a verdade é que vendo o seu comportamento posterior, dando a si próprio trabalhos mentais típicos como um homem culto, a citação do diretor russo vai além da mera paródia. Ele o faz com muito respeito e carinho por um tipo de cinema que está em desacordo com a comercialidade. Comparando-o com o cinema pornô, muitas perguntas surgem a partir dele: Tarkovsky e a pornografia são a mesma coisa? são igualmente inúteis? ou, por mais cultos que alguns deles sejam, de vez em quando é muito melhor fazer um filme ruim, ou algo que nem chega ao cinema? ou ainda mais simples, a pornografia é igual a Tarkovsky? ou o contrário? Delirante. Ou o mais simples de todos: o verbo “perseguir” quando usado com as pessoas pode significar “assédio sexual”.

‘A.V. (Vídeo Adulto)’ perde-se um pouco quando se torna realmente transcendental. Quero dizer, movendo-se no campo da comédia tudo funciona, e há gags muito engraçadas (a referência aos filmes de Wuxia não é desperdiçada), mas quando a experiência de rodar um filme pornô só para dormir com uma mulher começa a ultrapassá-los, o filme muda de tom, fica sério e não acaba aprofundando em alguns personagens que parecem ficar vazios assim que você os tira do contexto da comédia. Embora haja algumas reflexões sobre os jovens de hoje que são de interesse, todas da boca de um dos personagens mais marcantes do filme, um jovem interessado nas exigências sociais.

Os atores são todos muito corretos, exceto Manami Amamiya, que interpreta a si mesma, e parece não saber como fazer isso. É claro que não há cenas de sexo explícito e a tia perde-se. A verdade é que, pelo pouco que ela faz, eles poderiam ter puxado uma verdadeira atriz para colocar algumas migalhas no assunto. Apesar de ter uma famosa atriz pornô japonesa no filme ter suas piadas, o filme acaba pagando um pouco das conseqüências de alguém com as qualidades de atriz de uma máquina de lavar roupa.

Com todos os “A.V.”. (Vídeo Adulto)’ é um filme correto, muito agradável para se passar um tempo muito divertido. O seu realizador, Pang Cheung-ho, filma com ritmo e sem estridência um filme bastante universal que qualquer pessoa, onde quer que esteja, pode desfrutar na sua medida certa e sem preconceitos. Se você estiver interessado em vê-lo, ele está disponível para aluguel ou venda.

Mais informações | Imdb

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