dez jornais que provam que ele é muito mais do que o Justiceiro.

Os dias dos heróis de acção de uma só peça já lá vão há muito tempo. Tão longe, que lhes foi dado tempo para crescer, triunfar, decair, desaparecer, hibernar e ressurgir, uns com mais fortuna do que outros. Chuck Norris como caricatura memética, Schwarzenegger acaba de voltar (que disse que voltaria por isso), Stallone apertando todo o ciclo com ‘Os Mercenários’ e Van Damme… bem, sendo Van Damme.

No entanto, entretanto precisamos de outros heróis de ação, não tão graníticos como os dos anos oitenta, mas igualmente eficazes. Alguns deles (Nicolas Cage, Samuel L. Jackson, Hugh Jackman, Liam Neeson) combinaram o cinema dramático com épicos de pólvora. Outros (Dwayne Johnson, Vin Diesel, Jason Statham) têm funcionado como herdeiros desses heróis canônicos e estômagos.

Em um curioso meio termo está Thomas Jane, um herói de ação com um certo histórico dramático. Um cara mace que funciona como uma toupeira à prova de balas, mas que também é capaz de dar uma certa fragilidade aos seus papéis, como mostra a sua incursão ocasional em gêneros sem ação e sem thriller.

Hoje propomos um tour pela sua filmografia com dez papéis que cobrem todos os estilos mas, sobretudo, mostram uma versatilidade que lhe deveria ter garantido um certo estatuto para além da condenação dos baixos orçamentos onde parece estar estagnado. Uma vida pessoal obscura e alguma má sorte o distanciaram de um status de estrela que parece resistir a ele.

A última vez que cometi suicídio (1997)

Depois de aparecer em filmes como o longa-metragem ‘Buffy, a Caçadora de Vampiros’ ou a sequela de ‘O Corvo’, Jane esteve ocupada durante 1997. Seus papéis de suporte começaram a se destacar em produções como ‘Face/Off’ ou ‘Boogie Nights’, e ela estrelou neste drama de Stephen Kay sobre Neal Cassady, um dos mais proeminentes escritores da Geração Beat e famoso por uma carta significativa que ele escreveu para Jack Kerouac. O filme fala de suas relações e personalidade fugidia, e Jane dá ao personagem uma imprevisibilidade juvenil muito interessante.

A Velocidade da Vida (1998)

Antes de entrar em acção com ‘Deep Blue Sea’, Thomas Jane continua a aparecer em papéis dramáticos em filmes bem conhecidos, como ‘The Thin Red Line’, ou estrelando em produções decididamente menores, como o thriller humorístico ‘Thursday’ ou o drama ligeiro (mas sórdido) ‘The Speed of Life’, onde dá vida a um gigolô amigo do actor porno Valentino (Vincent D’Onofrio), afectado pela SIDA.

Mar Azul Profundo (1999)

Tubarões super-inteligentes, uma base de pesquisa subaquática e uma aventura com muita zombaria são os ingredientes de um dos primeiros filmes de ação pura da Jane. Uma estimável e muito sólida aventura, claustrofóbica e anterior à actual mega-febre ridícula, e que tem uma das melhores cenas de morte de uma personagem da história. Aqueles de vocês que o viram, sabem do que estou a falar.

Filmado por um Renny Harlin muito inspirado, mas com uma carreira que já estava a balançar após o fracasso de ‘Memória Mortífera’, é uma das produções mais revisáveis de Jane. Nele ela interpreta uma personagem na qual se especializaria: o tipo duro, carismático, mas com um fundo dramático e um olhar triste.

The Dreamcatcher (2003)

Uma estrondosa falha de bilheteira que relegou as adaptações de Stephen King à série B, um nicho do qual emerge apenas uma década mais tarde e no qual houve excepções como, curiosamente, a actuação de Jane de ‘The Mist’. Aqui, o actor faz parte de um notável elenco coral (Morgan Freeman, Jason Lee, Timothy Olyphant, Tom Sizemore, Donnie Wahlberg) numa história um pouco desordenada de ultra-corpo e telepatia.

O Justiceiro (2004)

Um dos papéis mais conhecidos de Jane é também um dos que melhor se adapta à sua personalidade. Distanciando-se do vingador de uma peça que Dolph Lundgren interpretou na (grande) primeira adaptação da personagem Marvel, Jane deu à personagem uma psicologia trágica que era essencial para evitar transformá-la em um desenho animado.

Jane repetiu como Frank Castle no extraordinário curta-metragem ‘Dirty Laundry’ (em muitos aspectos superior ao filme), e embora já tenha avisado que não está interessada em recuperar o personagem, sua performance continua sendo a mais emocional e dramática do filme. Se você gostar do filme, fique atento aos extras do DVD, que conta a história do difícil processo de Jane em jogar Castle, ao ponto de o filme ter sido rodado com seu completo envolvimento.

O Nevoeiro (2007)

Uma das melhores adaptações recentes de Stephen King tem um Thomas Jane muito entonado que estava pessoalmente a passar pelo inferno com o vício do álcool. Jane consegue criar um herói tridimensional, o que certamente acrescenta personalidade a este conto estupendo de uma invasão da Terra que começa com a típica situação claustrofóbica com ecos de John Carpenter e termina com algumas das imagens mais memoráveis do cinema de fantasia da época.

Crônicas Mutantes (2008)

Em 2008 Jane decidiu acabar com seu vício, quando foi preso três vezes seguidas por adormecer ao volante do carro, quando voltou do funeral de um amigo bêbado. Foi quando ele percebeu que tinha de mudar a sua vida. Paradoxalmente, foi também um dos seus anos de maior sucesso, embora os tempos de flerte com o cinema mainstream graças a ‘The Punisher’ ou ‘The Fog’ não voltassem.

Mutant Chronicles’ é uma produção de ficção científica muito modesta baseada num jogo de role-playing e concebida para o mercado doméstico. Eles acompanham Jane Ron Perlman e John Malkovich, e entre os três eles dignificam a história de uma máquina que chegou ao planeta do espaço há dez mil anos e transforma humanos em mutantes.

Give ’em Hell Malone (2008)

Na última década, com algumas excepções específicas, Jane tem estado imersa em thrillers e dramas de baixo orçamento, sendo muitas vezes o terceiro ápice num triângulo de actores ou figurantes com actores principais nas horas baixas, como Bruce Willis no engraçado ‘Vice’ ou John Cusack na sarna ‘Escape to the Edge’.

Um de seus últimos papéis principais foi em ‘Give ’em Hell Malone’, uma homenagem de coração à série negra na qual Jane cabe como uma luva e onde ela é acompanhada por Ving Rhames e Elsa Pataky. Neste curioso e sardônico filme temos uma mala com um conteúdo misterioso que muda de mãos, alguns massacres e o habitual carisma de uma Jane mais taciturna do que nunca.

Eu Derreto Contigo (2008)

Já quase definitivamente condenado a pequenas produções, quando não decididamente amador, este filme é no entanto interessante pelos seus aspectos autobiográficos, que Jane também co-produziu. Fala de um trio de amigos (Jane, Jeremy Piven e Rob Lowe) que uma vez por ano mergulham numa espiral de drogas e desta vez, claro, acaba mal. Jane admitiu que filmar algumas das sequências de intoxicação máxima do filme (um drama muito menor, caso contrário) foi particularmente doloroso para ela.

Pendurados (Gifted) (2009-2011)

O último grande papel de Thomas Jane foi para a HBO. Hung (Gifted)’ é uma tragicomédia sobre um treinador de basquete quebrado que é forçado a trabalhar como um gigolô e tirar proveito de seu talento físico. Suas dúvidas e seu relacionamento peculiar com um casal de assistentes serão o núcleo de uma revisão meio esquecida, mas que vale bem a pena, especialmente para verificar o talento nunca muito explorado de Jane para a comédia de baixa intensidade.

Jane está mais ou menos definitivamente imersa em filmes menores, como as produções de ação ‘Cornered’ ou ‘Men of Courage’, ou os filmes de terror ‘The Veil’ e ‘Somnia’. Mas há espaço para a esperança: em março, sua presença foi revelada no tão esperado “O Predador”, de Shane Black. Seria uma grande oportunidade de ver Jane transformar-se naquele herói de ação que, como todos os seus personagens e ele mesmo, passou por muitas tragédias pessoais.

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