do erotismo na ‘Belle de Jour’ à paixão da ‘Indochina

Quando Catherine Deneuve foi a grande musa do cinema: do erotismo na 'Belle de Jour' à paixão da 'IndochinaAtores e atrizes FALAMOS HOJE ANUNCIAMOS

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2 comentários 16 Janeiro 2018, 11:01 Antonio Ramón Jiménez Peña@urockbroDepois

do manifesto de uma centena de artistas e intelectuais franceses na passada segunda-feira, as críticas não

tardaram a chegar.

Tendo em conta a oposição dos signatários aos movimentos contra o assédio sexual desencadeados após o caso Weinstein, como as iniciativas #MeToo ou #BalanceTonPorc em França, o texto publicado no Le Monde suscitou controvérsia.

Entre aqueles que subscrevem este texto, que fala de “puritanismo sexual” ou do “direito de intrusão”, estão mulheres de renome como Joëlle Losfeld, Catherine Millet, Ingrid Caven, Stéphanie Blake, Brigitte Sy, Gloria Friedmann ou Catherine Deneuve, talvez a mais proeminente deste grupo. Na verdade, Deneuve tem sido aquele a quem mais críticas tem sido dirigidas, atuando como o chefe do manifesto. Ela já havia levantado uma controvérsia ao apoiar Roman Polanski diante de acusações de assédio sexual de uma menina de 10 anos.

Uma imagem que, naturalmente, contrasta com o manifesto das 343 raposas que ele assinou em 1971 junto com figuras ilustres como Simone de Beauvoir, Agnès Varda – a avó da Nova Onda -, Delphine Seyrig ou Margarite Duras a favor do aborto.

Já naqueles anos, a actriz francesa gozava de prestígio. Mas hoje, além de suas opiniões, Catherine Deneuve é a história viva do cinema e a atriz francesa mais importante do mundo. Ela fez aparições lendárias com alguns dos mais destacados diretores da história do celuloide, incluindo Truffaut, Buñuel, Jean-Pierre Melville, Jacques Demy e a própria Agnès Varda, e foi a musa da vanguarda do cinema nos anos sessenta e setenta.

Catherine, cujo apelido nem sempre era Deneuve, nasceu em uma família de atores. Começou a sua carreira de actriz em ‘Le collégiennes‘ (1957), de André Hunebelle, aos 14 anos, com o nome do seu pai, Dorléac. Ela cunhou o sobrenome de sua mãe e começou a aparecer em filmes como ‘Les Portes claquent’, ‘L’homme à femmes’ (ambos em 1960), ‘Et Satan conduit le bal’ (1962) e ‘Le Vice et la Vertu’ (1963).

Deneuve, musa da Nova Onda

Será com “Os Guarda-chuvas de Cherbourg” que Deneuve se destacará no cenário internacional. O filme de Jacques Demy foi o grande vencedor do Festival de Cannes, onde ganhou a Palma de Ouro, o Prêmio OCIC e o Grande Prêmio Técnico.

Nele, Deneuve interpreta Geneviève, um papel que é notável não só pela sua performance, mas também pela sua voz: que o filme era um musical no estilo do cinema francês da época, baseado na

época e no qual as canções eram intercaladas com declamações.

O seu próximo grande papel será o de Carol, a protagonista da “Repulsão” (1965). No filme de Polanski vemos uma Catherine Deneuve que brilha na tela como uma diva e um mito erótico em uma performance memorável. O que é particularmente marcante é a dicotomia entre atração sexual e repulsão desenvolvida ao longo do filme, que lhe valerá um lugar num dos filmes mais importantes da história da celuloide: ‘Belle de Jour’ (1967).

Erotismo e frieza

Da atriz, Luis Buñuel disse que ela era “bela como a morte, sedutora como o pecado e fria como a virtude”. E esta frase poderia definir perfeitamente o seu papel em ‘Belle de Jour’, um dos filmes mais destacados do realizador aragonês. Nele, ele intensifica a contradição sexual que já havia exibido em “Repulsão”, no papel de uma jovem burguesa que é uma prostituta

à noite.

O desempenho brilhante de Deneuve não se deve tanto ao florescimento interpretativo, mas sim à natureza compassiva e até hierática da sua expressão.

Este é um papel sutil, elegante e cheio de subtexto que realça ainda mais o lendário filme, que ganhou o Leão de Ouro.

Nesse mesmo ano, a atriz volta a participar de um filme de Jacques Demy, “As Damas de Rocherfort”, que estrelou com sua irmã Françoise Dorléac em uma bela homenagem à época de ouro do musical de Hollywood. Em 1969, ele atuará para François Truffaut pela primeira vez em ‘A Sereia do Mississippi’, e um ano depois, Jacques Demy lhe dará o papel principal em ‘A Pele de Burro’, baseado na história de Charles Perrault.

Buñuel contará mais uma vez com a atriz francesa para outra obra mítica, desta vez do cinema espanhol: ‘Tristana’ (1970). O segundo regresso do director a Espanha depois da controversa “Viridiana” (1961) foi a sua última participação na indústria espanhola.

Desta vez, Deneuve interpreta o personagem de Benito Pérez Galdós que Buñuel recriou na tela, e que reflete uma evidente reivindicação do papel da mulher na sociedade diante do papel dominante dos homens – aquele Don Juan que chegou à beira de ser morto pelo arrogante Fernando Rey.

O erotismo continua a ser a chave em ‘Tristana’, mas a evolução da jovem mulher também ganha força, demonstrando, mais uma vez, a maravilha interpretativa da sutileza de Deneuve ao passar da inocência à frieza.

Em 1972, Jean-Pierre Melville contará com ela para “Crónica negra”, um clássico do noir francês. A dupla Deneuve-Fernando Rey se encontrará novamente em ‘La mujer de las botas rojas’ (1974), desta vez com Juan Luis Buñuel (filho). Nesse mesmo ano também estrelou em ‘La gran burguesía’, sua primeira incursão no cinema italiano, onde apareceu em ‘La caseta de risa’, ‘Alma perdida’ (ambas de 1977) e ‘Esperemos que sea mujer’ (1986).

Calor e ternura

Mais uma vez Truffaut vai chamar Catherine Deneuve, desta vez para uma das suas actuações mais bem sucedidas. Em 1980 ela co-estrelou em ‘The Last Metro’ com Gérard Depardieu, uma bela história sobre o nazismo e o teatro que lhe valeria o seu primeiro prémio César de melhor performance feminina. No filme, ela interpreta Marion Steiner, a esposa de um empresário teatral judeu que desaparece e a deixa encarregada de dirigir o negócio.

Ao contrário de seus papéis com Buñuel, Deneuve aqui mostra suas habilidades de atriz, passando para a antítese de ‘Belle de jour’ e ‘Tristana’: da frieza e sutileza, a atriz surpreende com uma volta de 180 graus, mostrando proximidade e paixão em seu personagem.

Sem esquecer o seu regresso ao cinema britânico com ‘The Longing’ (1983), partilhando a conta com David Bowie num retrato elegante e erótico de vampiro, Catherine Deneuve regressa fortemente à sua actuação mais sentida e vulnerável em ‘The Crime Scene’ (1986), com um papel caloroso como Lili Ravenel. Nos anos 90, ela participou do documentário de Àgnes Varda ‘Les demmoiselles ont eu 25 ans’ (1993), uma comemoração do filme ‘As Damas de Rochefort’ que a atriz estrelou em 1967.

Outro dos seus grandes papéis maduros é o de ‘Indochina’ (1992), que lhe valeu uma nomeação ao Oscar, bem como o seu segundo prémio César. Com base em performances muito mais apaixonadas e próximas ao público, Deneuve encanta e mostra seu know-how em uma de suas mais brilhantes performances, desta vez em uma história romântica com a situação da Indochina francesa antes da Segunda Guerra Mundial como pano de fundo.

No final da década, ela estrelou em ‘Pola X’ (1999), pelo enfant terrible Léo Carax, um dos diretores mais peculiares da cinematografia francesa contemporânea. Ele faz parte do elenco de ‘Bailando en la oscuridad’ (2000), onde participa como aluno do ensino médio.

Catherine Deneuve, dama de ferro

O seu papel no “8 Mulheres” de François Ozon (2002) pode muito bem ser considerado um curioso regresso ao seu estilo de representação juvenil. A frieza de seu caráter brilha, adaptando suas formas em ‘Belle de jour’ ou ‘Tristana’: ela não é mais uma jovem inocente, mas uma mulher forte e independente.

Pecamos de reducionismo, pois no texto não conseguimos descrever a colaboração de Deneuve com Manoel de Olivera, que nos deixou filmes tão interessantes como ‘O convento’, ‘Una película hablada’ e ‘Vuelvo a casa’, bem como os seus últimos filmes, onde encontramos propostas como ‘Un cuento de navidad’, ‘La cabeza alta’ e ‘El nuevo testamento’.

Mas é praticamente impossível cobrir a espetacular carreira da atriz francesa com tão pouco espaço. Demonstrando um espectacular registo de actuação, Catherine Deneuve é, por direito próprio e para além de qualquer controvérsia sobre a sua forma de pensar, um dos mitos da sétima arte.

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