“Êta Mundo Bom” chega ao capítulo 100 mostrando que nem sempre o clichê é ruim – Coisas De TV

Quando “Êta Mundo Bom” foi anunciada na imprensa, aqui na redação só conseguimos pensar em duas coisas: se Walcyr Carrasco tem oito mãos para conseguir escrever duas novelas ao mesmo tempo e se não era abusar demais da fórmula do autor fazer uma outra novela de época, com núcleo da fazenda, guerra de comida, gente caindo no chiqueiro e Flávia Alessandra vilã platinada.

Não podemos mentir: abusar demais da mesma forma o autor abusa sempre e seguiu abusando na atual novela das seis. Dessa vez inspirada em Voltaire e Mazaropi, “Êta Mundo Bom” trazia a história de um caipira chamado Candinho, que é quase um jeca tatu que foi criado em uma fazenda depois de ser tirado dos braços da mãe. Criado talvez não fosse exatamente a palavra para Candinho, já que ele depois de crescido foi morar no estábulo e trabalhava de graça. Mesmo assim, na figura do caipira ingênuo, o personagem acredita que tudo de ruim que acontece na vida da gente é pra melhorar.

E é com esse pensamento que depois de ser expulso da fazenda o caipira vai pra São Paulo atrás da mãe, carregando consigo a roupa do corpo e seu burro Policarpo (animais não-usuais de estimação, um clássico de Walcyr) com a esperança que aquela invertida da vida o ajudasse a achar a mãe perdida.

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Daí pra frente são várias daquelas situações corriqueiras de uma novela das seis de Walcyr: vilões que só pensam em enriquecer às custas de golpes, mocinhas ingênuas que mesmo sofrendo muito não deixam de acreditar, um núcleo da fazenda que fala em caipirês e não hesita em jogar ninguém no chiqueiro (até agora foram seis quedas, contabilizamos aqui), guerras de comida, carros desgovernados e índices altíssimos de audiência. Pois é, mesmo que o horário das seis não sofresse com o fracasso há algum tempo, Walcyr trouxe consigo picos de audiência que nos melhores dias faziam com que a história de Candinho superasse a novela das nove, o principal produto da Globo.

Temos algumas ressalvas às novelas de Walcyr, como temos a todos os autores que acabam encontrando uma fórmula. Às vezes a trama peca pelo excesso: tem didatismo demais junto com humor pastelão demais. Se fôssemos contabilizar as guerras de comida, por exemplo, chegaríamos a um número no mínimo alto. Apesar disso, ao chegar ao capítulo 100 (que foi exibido ontem, 12/05) a trama escrita pelo autor segue muito bem de audiência e conquistando cada dia mais o carinho do público.

Uma coisa é certa: mesmo dentro de uma mesma fórmula, Walcyr sabe como se reiventar dentro da trama. A trupe da fazenda, por exemplo, vive se enfiando em novas situações que acabam tornando a novela mais leve. Candinho está prestes a ser enganado por Sandra (Flávia Alessandra) em uma história que sabemos mais ou menos como vai terminar, mas não temos certeza. E no mais, alguns personagens realmente roubam a cena.

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Maria (Bianca Bin) encanta ao ser aquela mocinha que é boa mas que não é tonta. Forte e decidida, a governanta da mansão não leva desaforo pra casa e consegue rapidamente enxergar quando alguém está tentando enganar aqueles que ela ama. No núcleo da fazenda Eponina (Rosi Campos) e Mafalda (Camila Queiroz) sempre arrancam boas risadas quando começam a falar do tal cegonho. Voltando pra cidade, Sérgio Guizé conseguiu dar o tom certo ao Candinho, que não parece exagerado demais e Marco Nanini rouba a cena ao ser mil em um com seu professor Pancrácio (que agora até ganhou um irmão gêmeo).

A novela tem defeitos também, é claro. Filomena (Débora Nascimento) não engrenou como mocinha, Celso (Rainer Cadete) acaba confundindo os telespectadores que o viram tão recentemente no papel de Visky e certos núcleos ainda não convenceram como é o caso do núcleo do jardim secreto ou o dos impostores Sandra e Ernesto (Eriberto Leão) que mais parecem reedições de alguma coisa que já vimos nem faz tanto tempo assim.

Fora isso, é preciso admitir que uma novela repleta de clichês como “Êta Mundo Bom” tem seus méritos. Por mais que já tenhamos visto isso antes, várias vezes, não podemos negar que uma boa guerra de comida ou uma queda no chiqueiro nos arranca uma boa risada. E nesse papel tão importante que a novela tem, de nos tirar um pouco da nossa realidade cansada, os clichês de “Êta Mundo Bom” fazem um bom trabalho.

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