Miyazaki declara o seu amor pela natureza com esta grande aventura

O Vale do Vento é um lugar que se tornou amaldiçoado mil anos depois de uma guerra mundial catastrófica. A humanidade mal sobrevive à beira de uma floresta contaminada com gases tóxicos e insetos mutantes gigantes, que cobrem grande parte da Terra. Neste cenário pós-apocalíptico, vive Nausicaä, a princesa do Vale do Vento, a única filha do rei. Este jovem piloto e guerreiro procura a chave para estes contágios e resiste a ver os insectos como inimigos. A crise eclode quando o reino vizinho de Tolmekia, sob o comando da Princesa Kushana, invade a cidade e tenta reviver um “Deus da Guerra” mortal dos tempos da grande hecatombe, a fim de triunfar contra seus inimigos e contra a floresta contaminada.

Depois de ver outros filmes de Hayao Miyazaki, parece uma piada ler que alguém achou ‘Nausicaä of the Valley of the Wind‘ (‘Kaze no Tani no Nausicaä’, 1984) difícil de entender. A primeira coisa que se destacaria sobre este anime em comparação com outros de seu autor é a diáfania de sua trama. É, no entanto, uma obra variegada e convoluta, que luta contra a dificuldade de resumir uma manga longa e, portanto, apresenta mais densidade de conteúdo do que estamos acostumados a assimilar, especialmente em obras que tomamos por certo que serão dirigidas a um público infantil. No entanto, tudo nele responde a parâmetros narrativos clássicos e compreensíveis e, fazendo um esforço de atenção, qualquer elemento pode ser girado e justificado. Mais tarde, os japoneses escolheram uma tendência muito mais abstracta e poética para incluir intencionalmente acontecimentos incompreensíveis ou aspectos inexplicáveis em obras como ‘A Viagem de Chihiro‘, ‘Meu Vizinho Totoro‘ ou ‘O Castelo Itinerante‘, que não aparecem em ‘Nausicaä do Vale do Vento’. Também não é uma história que deva ser tornada obscura para os espectadores ocidentais, uma vez que se baseia na mitologia grega, em vez de seres ou lendas orientais.

A partir deste filme, Miyazaki já coloca o seu amor pela natureza, ou seja, aquele tipo particular de ambientalismo, não forçado ou óbvio, que o tem caracterizado desde então. Nausicaä’ é também um filme que apela à paz e à tentativa de compreender o inimigo, apesar – ou precisamente porque – de cenas de guerra, batalhas de todo o tipo e dispositivos concebidos para a guerra na imaginação do autor. Neste sentido assemelha-se, mais do que qualquer outro anime que Ghibli criou mais tarde, à “Princesa Mononoke“. Embora o seu tom seja menos violento, partilha com ela muitos elementos, tanto que o de 1997 pode parecer uma reescrita do mesmo. Os ensinamentos acima mencionados – pacifista e respeito pelos seres vivos – estão entrelaçados numa história emocional e original que permite momentos divertidos e emocionantes, assim como belas cenas contemplativas.

Nausicaä’ tem mais cores pastel que outros filmes Ghibli, o que não sei se isto se deve à escolha do autor ou ao facto de a restauração de que falávamos ontem não ter resgatado completamente os tons e a nitidez originais para a actual versão 35mm. Apesar da sensação de tempo que esta baixa saturação pode causar, uma vez que se entra no universo do filme, tudo é maravilhoso. Os animais e insetos gigantes parecem ter personalidade própria, as paisagens são tão imaginativas e atraentes que poderíamos nos esgueirar nelas e voar sobre elas como o protagonista faz, sem deixar de surpreender. Os personagens são, como sempre neste criador, outro dos estímulos da obra, tanto pelo seu desenho estético, como pela sua personalidade e comportamento sempre ambíguos. É, portanto, um filme para ser apreciado.

Ao longo do anime, a trilha sonora de Joe Hisaishi, um colaborador regular de Miyazaki e seu produtor e parceiro, Isao Takahata, é muito marcante. Se muitos detalhes de ‘Nausicaä do Vale do Vento’ servem para datar o filme dos anos 80, a música é o que mais claramente nos leva de volta a essa década. Partituras eletrônicas muito marcantes – quase estridente – acompanham os momentos de ação e aventura que a jovem mulher vive, enquanto outras composições mais melódicas, bastante belas, preparam o cenário para os momentos mais tranqüilos.

Um filme longo, denso e exigente, mas que nada nos falta do que nos fascinou em relação a Miyazaki em propostas posteriores. Eticamente e esteticamente maravilhosa, a ‘Nausicaä do Vale do Vento’ é imperdível, e mesmo que esteja mais de um quarto de século atrasada, esta versão restaurada nos dá uma excelente oportunidade de vê-la em toda a sua glória.

Nota sobre a distribuição: o filme foi lançado a 7 de Maio em 35 mm, em japonês com legendas, em salas de cinema de Madrid e Barcelona, onde a estreia coincidiu com a Feira de BD e o Festival de Cinema Asiático. Mais tarde, estas cópias circularão em cinemas de outras cidades. No final de junho, será lançado em DVD.

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