Pepe Sancho (1944-2013)

José Asunción Martínez Sancho morreu de câncer de pulmão e tinha 68 anos de idade. Ele era ator, ator de cinema, serialista de televisão e ator de teatro. Foi um actor espanhol, em suma, um daqueles cuja familiaridade ao longo das décadas lhes deu um ar invencível, como se o tempo passasse ao som dos seus papéis.

Sancho foi tantas vezes a Espanha. Ele era o marido tempestuoso de um cantaora. Ele foi o vilão de uma novela (ou várias). Ele era secundário em relação a algumas das estrelas da música. Ele foi um actor recém-descoberto no palco quando tinha vinte anos de idade. Ele foi um debutante sem se parecer com um. Ele foi tantas vezes um espírito que avança e não pára.

É difícil, numa filmografia e num corpo de trabalho tão vasto, não ser injusto por não ter sido um artista completo. Dois Almodovares: ‘Carne Trémula’ (id, 1997) e ‘Hable con ella’ (id, 2002) onde ele deu a La Mancha aquele toque de qualidade e experiência que ele gosta de receber de atores que já são velhos. E mesmo sendo breve no segundo, sua aparência é magnífica, dando uma ótima embalagem para a tela.

Vamos pôr uma Berlanga, vamos pôr duas. O Magnífico carrega o ritmo da louca e profundamente visionária comédia ‘Todos a la cárcel’ (id, 1993) na qual segue aquele ritmo de envolvimentos e subornos com a energia que aquela câmera que sempre se move requer. Ou seu último trabalho, mal compreendido até hoje ‘Paris Timbuktu‘ (id, 1999) onde participa do adeus de um imenso cineasta.

Mas qual foi o papel pelo qual Sancho será lembrado por muitos? É claro que o Don Pablo em ‘Cuéntame como pasó’ (2001-2008) é familiar a muitos telespectadores espanhóis, pois leva Don Antonio Alcántara (Imanol Arias) de cabeça para baixo e se resigna a caminhos não muito bonitos da lei. Mas este Don Pablo é apenas um esboço dos seus talentos, um registo repetido do que tem sido os seus melhores momentos de actuação.

Sancho 2

Porque Sancho foi um Henrique IV no teatro, mas este é um reino no qual não há espaço para as gloriosas decadências que ele imaginou com o verso branco de Shakespeare. Este país é uma estranheza. Este país é a barulheira, aqui não há reino para um cavalo, aqui há um cunhado. Por isso Jorge Sánchez Cabezudo pegou o melhor Sancho e o colocou no centro de sua adaptação de Rafael Chirbes, ‘Crematorio‘ (2010).

Se não tivesse sido suficiente ser o subestimado, a presença familiar da televisão ou o incansável secundário, Sancho acabou por ser toda a Espanha: o político verdadeiramente poderoso, que é uma forma de dizer o homem na sombra. Um monarca que toma decisões pelos outros, um bom homem de família, um padrazo, que aponta e corrompe e participa de uma estrutura que o facilita. Tudo o que ele precisa são alguns telefonemas e pequenas canções no ar: foi assim que Sancho nos deixou uma interpretação com a qual entender qualquer daqueles rostos que infestam aquele Valência que o viu nascer – em Manises – e morrer, qualquer um desses momentos infames.

Porque o Sancho não se cansou e agora foi-se embora e não vamos esquecer o seu legado.

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