Peter O’Toole (1932-2013)

Há muitas perguntas que, receio, Peter O’Toole deixará, por enquanto, sem resposta. O primeiro é onde ele nasceu. Num olhar sobre a rede, parece que foi a Irlanda, no Connemara, outros dão o seu lugar de crescimento, o West Riding of Yorkshire, como o válido. Ele morreu aos 81 anos e deixou para trás uma longa e notável filmografia e outra pergunta ainda mais estranha: como ele poderia ser indicado tantas vezes pela Academia para a categoria de melhor desempenho (oito vezes!) e não ganhar nenhuma? E então eles dizem.

Alguns talvez se lembrem de sua atuação em ‘Lawrence da Arábia’ (1962) e isso é bom. Tudo naquele magnífico filme de David Lean foi gigantesco, mesmo o tema central composto para ele por Maurice Jarre. É, talvez, a última grande produção de uma Hollywood que estava morrendo e que quando, transformada em outra coisa, reaparecesse com força, não seria mais a mesma, nem mesmo na melodia.

Mas o legado de O’Toole é gigantesco, e se você conseguir um papel icônico como esse e se tornar parte da história do cinema com seu rosto, é muito difícil sustentar uma longa carreira, mais de quatro décadas, sem ter que lidar com o sambenito do anedótico ou com as perguntas recorrentes.

O’Toole fez isso, embora com exceção da raramente vista ‘Vênus’ (id, 2006), que lhe valeu a oitava nomeação para o Oscar (e a sua última derrota), ele foi um dos principais secundários em algumas mega-produções em vez de um ator de quadrinhos tão versátil como ele já foi. O cinema também tinha mudado, as peles de alguma liberdade criativa e temática tinham mudado, e as coisas estavam indo de uma forma mais ordenada.

Por isso vou seleccionar, na sua vasta filmografia, alguns dos seus papéis inesquecíveis, mesmo que seja como uma homenagem apressada, porque não é outra coisa dizer adeus ou obituário, linhas com que nos despedimos daqueles que deixaram demasiadas horas de bom trabalho e de bom trabalho. Em sua última etapa, todos o recordarão, seja em Joana D’Arc’ (1999) ou na série de ‘The Tudors’ (2008), como uma inconfundível personagem secundária vestida com trajes de época, servindo como bispo ou papa. Não era um gênero raro para O’Toole, pois ele já havia estrelado algumas das memoráveis superproduções britânicas dos anos 60 que trataram de episódios controversos da história, como o maravilhoso ‘The Lion in Winter’ (1968).

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Que O’Toole tenha sobrevivido aos anos 60 é, se pensarmos bem, um milagre. Sempre fiquei feliz por ele estar no What’s Up Pussycat? (What’s new Pussycat, 1965) com um roteiro de um Woody Allen pela primeira vez, mas nunca teve um perfil mais galante como em Como Roubar um Milhão e… (Como roubar um milhão, 1966) com Audrey Hepburn. Não é um grande filme, mas o que importa: é um filme encantador e, diante do encanto, dificilmente se pode discutir.

De O’Toole eu gostaria que as pessoas se lembrassem de Peter Medak’s The Ruling Class (1972) não porque foi nomeado (claro!), mas porque é uma comédia negra britânica esquecida e muito dolorosa, que é também a minha crítica sobre o favorito do Estripador no grande ecrã.

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Menos conhecido é ‘My Favourite Year‘ (1982), uma comédia nostálgica ambientada nos anos 50 em que O’Toole se parodiou, dizem alguns, enquanto outros dizem que foi o próprio Errol Flynn quem inspirou a história contada.

E, é claro, Anton Ego. A voz do crítico. O monólogo final de ‘Ratatouille‘ (id, 2007) foi transformado em verbo e emoção por este distinto homem, que também teve uma longa e acreditada carreira no teatro (ele foi um Hamlet para Sir Laurence Olivier, lembre-se).

O’Toole, em resumo, deixou como última e grande interpretação memorável a de um crítico que aprendeu a retrair-se, porque, no final, arte e vida não podiam ser separadas. O’Toole deixa para trás um bom punhado de filmes e muita vida, incluindo a ocasional frase memorável, como “Entre ladrões pode haver honra, não entre políticos”, que hoje, inesperadamente, ganha uma estranha (e divertida) validade.

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