Philip Seymour Hoffman (1967-2014)

Há dias que não têm palavras, e há dias que te obrigam a preenchê-las. A morte de Philip Seymour Hoffman é a pior notícia possível. A notícia apareceu primeiro no Wall Street Journal e os detalhes da sua morte, aparentemente devido ao uso de drogas, deixam uma triste noite para o cinema.

Há muito poucos actores que merecem um filme só por causa da sua presença. Eles não são necessariamente aqueles atores que eu reivindico, embora eu não vá negar agora essa evidência do encanto das estrelas. Mas Philip Seymour Hoffman não era um desses atores, mas um ator icônico, imenso, capaz de dominar todos os registros e até mesmo torná-los fáceis, possivelmente o melhor de toda a sua geração.

Para mim, sua carreira começa com aquela curiosa e fugitiva aparição em ‘Hannah e suas irmãs (1986), onde ele interpreta o assistente sitiado de Woody Allen. Claro, Seymour Hoffman desempenhou muitos (e muito variados) papéis na sua carreira, e o pior de tudo é que acho que já testemunhei muitos deles nesta era precoce do cinema que não acho que tenha deixado para trás.

Quando fiz 18 anos, lembro-me de ver com curiosidade e alguma morbidez ‘Capote’ (id, 2006) em que interpretei o escritor americano a quem o filme foi nomeado durante o processo de escrita do controverso In Cold Blood. Hoffman não fez de Capote um maneirismo simples, embora em sua interpretação ele teria capturado, perfeitamente, além disso, os tiques do discurso do autor. Hoffman dá ao personagem o ponto exato do Fausto perdido que o filme busca e ele o realiza com surpreendente facilidade.

Nesse mesmo ano, ele foi o vilão em Missão: Impossível 3′ (2006), provando ser o mais carismático e memorável de todos os antagonistas que o agente de Tom Cruise Ethan Hunt combateu. Fiquei surpreendido com Hoffman: como ele foi capaz de tornar a carismática histriônica de um vilão no limite, ao inesquecível grito de Onde está a Pata de Coelho, compatível com uma carreira cheia de grandes dramas que foram, é claro, estudos de caráter.

A este respeito, lembro-me de “A Dúvida” (Doubt, 2008), um drama de John Patrick Shanley. Ou no único filme, por enquanto, como diretor de Charlie Kaufmann, a obra-prima elegante ‘Synecdoche New York‘ (id, 2008) ou em Before the Devil know you’re dead (2006), a despedida de Sidney Lumet, em grande estilo.

Ele até fez filmes menores, como aquele roteiro despreocupado de Aaron Sorkin que Mike Nichols filmou chamado A Guerra de Charlie Wilson” (2007), onde interpretou uma espécie de gângster, briguento e charmoso agente da CIA que podia resolver conflitos ao mínimo.

Não me esqueço, é claro, da sua colaboração com directores independentes. Feroz estava interpretando um dos monstros comuns e frágeis de Todd Solondz em ‘Felicidade’ (id, 1997) e sua colaboração com Paul Thomas Anderson vale bem a descrição de memorável e já mítica. Ele começou com seu primeiro filme, ‘Sidney‘ (Hard Eight, 1996) e continuou até ‘The Master’ (id, 2012). Para Anderson, Hoffman tem sido tudo: cômico ou brutal secundário, contraponto e ternura dramática e antagonista carismático, com uma longa sombra Wellesiana.

O Hoffman está morto. Nunca acreditei no adágio de que “ele honra esta profissão”, precisamente porque o que Hoffman faz não é dar maior honra a uma atividade – atuando neste caso – já que isso já está nas mãos de todos aqueles que nela trabalham conscienciosamente. O que Hoffman faz é ultrapassar as fronteiras da dignidade e da honra para entrar naquelas da lenda, do talento e do irrepetível.

O conhecimento, inesperado e também desagradável, melancólico e também injusto, de que nunca mais me sentarei para ver um novo filme deste titã faz do cinema um lugar mais solitário, mais cheio do passado, um passado que de repente aconteceu, no qual Hoffman foi e continua a surpreender com os seus papéis. Sua carreira é rica, cheia de riscos, prestígio, papéis que ninguém esperava e um poder que parecia competir com o dos diretores mais brilhantes para os quais ele foi dirigido.

Mas não foi só isso. Um actor tem de saber como escolher. Escolher quais papéis são mais fáceis para ele e quais outros são desafios para os seus discos. E Hoffman escolheu muito bem, algo muito raro, e escolheu, consequentemente, um tipo de cinema independente, ao qual nunca foi desleal, em detrimento de outras obras mais nutritivas. Hoffman levantava tiros inteiros ou os apoiava, Hoffman era, no final, aquela definição literal de “actorazo” com a qual mantemos a palavra viva.

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