“Respira”, deixa as tuas acções falarem por ti.

Kim Ki-duk é a poetisa coreana que deu origem a filmes tão maravilhosos como Ferro 3 e O Arco. Nesta nova criação, ‘Breath’ (‘Soom’, 2007), a cineasta conta-nos como uma mulher que já não confia no seu casamento fica obcecada com as tentativas de suicídio de um prisioneiro no corredor da morte. Quando ela descobre uma pista da infidelidade do marido, ela deixa tudo para trás e vai para a prisão para ver o prisioneiro. As regras dizem que ela não pode visitá-lo, mas o segurança da prisão é curioso e a deixa entrar para que ele possa espioná-la com suas câmeras que tudo vê. A esposa resgata um vestido de primavera e, sob a neve, vai a um segundo encontro, que ela apóia alinhando as paredes da sala de visitas com ampliações de paisagens floridas. Ela canta uma canção de Primavera e conta ao condenado uma história daquela época do ano. Ela quer fazê-lo viver as estações desse ano que ele não será capaz de completar.

Ji-a Park, que interpretou a mãe do bebé num filme cujo título poderia também ter sido usado para este: ‘Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera’ (‘Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom’, 2003), é Yeon, o personagem principal. Ela é uma mulher que não fala com o marido, mas com o prisioneiro que visita clandestinamente, interpretado por Chen Chang. Este, por sua vez, permanece em silêncio e mostra seu afeto pelo visitante com o mesmo silêncio com que demonstra sua rejeição ao companheiro de cela, que busca seu amor e morre de ciúmes por causa do intruso que invade os últimos dias da vida de Jang Jin. Os personagens silenciosos, mas que falam com seus olhos e ações, são uma constante em Ki-duk. Ninguém como ele consegue transmitir tanta coisa sem dizer nada. A paixão nesta praça do amor é excessiva e é precisamente aquele que menos fala, o companheiro de cela, que nos faz saber como ele se sente mais. Ele é provavelmente o personagem que mostra mais ternura e empatia em todo o filme. O marido começa a sentir o amor que havia perdido por sua esposa e, embora diga palavras ao longo do filme, é finalmente com seus atos que ele se redime. A esposa conta histórias, mas é o calor da companhia que serve ao condenado para se sentir vivo novamente.

Do seu posto de guarda, o guarda que nunca mostra o seu rosto, interpretado pelo próprio realizador, controla a vida dessas pessoas durante alguns momentos, já que cabe a ele determinar se elas devem ou não ser separadas e em que momento, como aliás cabe ao criador do filme. Mais uma vez, é um gesto, o pressionar de um sino, aquele que diz tudo, não palavras. Personagens terciários, como outros companheiros de cela, mostram sua solidariedade com o gesto de desenhar na parede da cela o corpo nu da mulher que visita a prisioneira.

Pela mesma razão que estas acções definem os personagens, são aqueles momentos, aquelas sequências concretas, que enchem de grandeza o ‘Breath’. O filme pode não ser tão maravilhoso em geral como alguns dos anteriores, mas conceitualmente, o que acontece nele são gestos de imensa generosidade que não podem deixar de ser comoventes. No final, há até momentos difíceis que estão relacionados com a palavra de que o título fala, “Respiração“, mas estes atos também envolvem gestos de generosidade por parte daqueles que os cometem. E quanto ao último momento, quando cantam uma versão coreana do ‘Tombre la neige‘ de Adamo, é a mais emocionante.

A “respiração” não fala apenas de sentimentos. Também convida à reflexão sobre muitas questões, como a pena de morte e ainda mais: o fato de que alguém que vai ser executado é curado e espera-se que se recupere de feridas auto-infligidas para terminar sua vida de uma forma teoricamente mais digna ou legal. Fala também de casamento e de incomunicação, de solidão. Neste sentido, as cenas em que a esposa deixa a camisa do marido cair da varanda – de má vontade na primeira vez – são lindas. A roupa fica manchada e inútil como metáfora de relações negligenciadas.

Breathabre no dia 4 de Julho.

Mais informações sobre Kim Ki-duk e ‘Breath’ no Blogdecine.

Deja un comentario

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

Esta web utiliza cookies propias y de terceros para su correcto funcionamiento y para fines analíticos y para mostrarte publicidad relacionada con sus preferencias en base a un perfil elaborado a partir de tus hábitos de navegación. Al hacer clic en el botón Aceptar, acepta el uso de estas tecnologías y el procesamiento de sus datos para estos propósitos.
Más información
Privacidad